Tese – Crianças no movimento sem terra e a política como “rito de iniciação”
Resumo: Partindo de um percurso etnográfico no Assentamento Histórias Vividas, localizado no município de São Mateus/ES, utilizando observações, entrevistas, rodas de conversa, fotografias, produções de desenhos e registros em diário de campo, a pesquisa tem como objetivo analisar se a participação das crianças no MST apresenta um enfrentamento político experienciado por elas em companhia dos adultos. No interstício entre o pensamento de Hannah Arendt e as reflexões do campo da Sociologia da Infância, que possuem percursos epistemológicos distintos, a pesquisa problematiza se a experiência do MST, na sua expressão presente e/ou passada, pode revelar uma participação política das crianças. Apresenta, como inspiração, um episódio comentado pela filósofa Hannah Arendt e pelo autor afro-americano Ralph Ellison, ocorrido na década de 50 nos Estados Unidos da América, após a segregação racial nas escolas ser considerada inconstitucional, fazendo com que crianças negras ingressassem em uma instituição em Little Rock até então frequentada por alunos brancos, gerando um alarde na sociedade. Se, para Hannah Arendt, tal situação representou a exposição de crianças a um problema político que deveria ser resolvido por adultos, Ralph Ellison pontuou que as crianças negras passariam por um “rito de iniciação” desde a mais tenra idade, como um teste básico de sobrevivência para a vida, crítica essa que a levou a repensar o seu posicionamento. A pesquisa questiona se as crianças, em movimentos sociais, não estão de forma semelhante expostas com outras categorias geracionais em lutas. Campos de estudos mais contemporâneos, como a Sociologia da Infância, advogam pela participação das crianças na vida pública, embora não definam explicitamente um conceito de política. Os resultados indicam que, em seus próprios modos de interpretar o mundo, as crianças compartilham com os adultos uma espécie de “ação”, extraindo da experiência intergeracional a política. Ao serem iniciadas na política, são formadas e participam da política com as demais categorias geracionais, dentro de suas próprias racionalidades e formas de compreender o mundo. O estudo conclui que há um enfrentamento político de adultos com as crianças, sem responsabilizá-las por problemas que antecedem o seu nascimento, sem lançá-las ao mundo sozinhas e desprotegidas, mas na perspectiva de reconhecê-las como integrantes da luta, de considerá-las no presente e no futuro, de não apartá-las de um mundo no qual se espera que elas possam agir e estabelecer novos começos.
Palavras-chave: participação política; infância; MST; Hannah Arendt; Sociologia da Infância.
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